18/04/2011

A Break

Eu vivo fazendo isso. Dificilmente me comprometo com algo por muito tempo. Um problema. Agora mesmo eu devia estar lendo para a aula de terça, mas me deu uma saudade. Saudade de escrever. Saudade de escrever sobre qualquer assunto sem enfoque acadêmico. Saudade de escrever em português. Eu ando nostálgica. Desde que completei 27 anos, eu ando nostálgica. Saudade do meu Rio. Saudade nem sei do quê.

 

Eu realmente ando ocupada, mas queria passar aqui para avisar (a mim mesma, talvez) que estou viva. E tenho saudade. Saudade nem sei do quê.

03/01/2011

"Quando eu morrer, eles me mandarão para casa"

 

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Sarah Kruzan era boa aluna na escola, do tipo excepcional mesmo, que tira as melhores notas e concorre a presidente da classe. Sarah morava com a mãe - viciada em drogas - em Riverside, no estado da Califórnia, EUA, e quase não viu o pai - que estava na cadeia - durante a infância. Desde muito jovem, Sarah sofria de depressão severa, tendo sido hospitalizada diversas vezes por conta disso. Mas aos 11 anos, Sarah conheceu G.G., de 31, que parecia disposto a mudar sua vida. G.G. era como um pai para a menina: era ele quem cuidava de Sarah, dava presentes e levava para passear. Ao longo do tempo, no entanto, G.G. passou a tentar convencer Sarah de que os homens só queriam se aproveitar dela, que nenhum deles prestava. De que, por conta disso, sexo não deveria ser um ato gratuito. Aos 13 anos, após fazer sexo com G.G., Sarah começou a trabalhar como prostituta do homem que poderia ser seu pai. O horário de trabalho de Sarah era de 6 da tarde às 6 da manhã e a possibilidade de voltar de mãos vazias era quase uma garantia de punição por parte de G.G.Sara Kruzan.jpg

Aos 16 anos, Sarah planejou a morte de G.G. e, com um tiro, deu fim à vida do homem que desgraçou a sua. Ré confessa, Sarah foi a julgamento e condenada por assassinato em primeiro grau, com agravantes. Não, você não leu errado, eu não escrevi "atenuantes". O juiz e o júri concluiram que Sarah não apenas planejou a morte de G.G., mas também levou 1.500 dólares de seu apartamento, além de ter mentido com o intuito de atraí-lo para o local do crime. Apesar de o órgão americano responsável por crimes cometidos por menores ter avaliado Sarah como passível de correção em uma instituição especializada, ela foi condenada a prisão perpétua, sem direito a condicional. Desde 1995, Sarah cumpre pena Central California Women's Facility.

Na verdade, eu nem precisaria narrar a história de Sarah, ela mesma o faz em um vídeo produzido para um especial da Human Rights Watch, chamado "Youth Behind Bars". Eu não me lembro exatamente quando assisti ao depoimento de Sarah pela primeira vez, mas me recordo perfeitamente do nó na garganta que senti ao ver e ouvir que, durante seu julgamento, o juiz declara que falta a Sarah "moral scruples", algo como escrúpulos, em português, e ela diz não saber o significado daquelas palavras, naquele momento. No vídeo, Sarah também pede desculpas por ter tirado a vida de G.G.; ela sabe que errou e merece ser punida. Ela só não sabe o quanto.

A campanha da Human Rights Watch tem o intuito de denunciar o sistema de justiça estadunidense, em especial o californiano, que condena menores de idade à prisão perpétua, sem direito à condicional. E isso só acontece nos Estados Unidos. Sarah é citada com frequência como um exemplo de falha do sistema, que deveria ter considerado o fato de ela estar em situação de constante violência e que G.G. não era "apenas" seu cafetão: de acordo com a própria lei estadunidense, ele era pedófilo.GirlsAreNotForSale_smalllogo.JPG

O caso está espalhado pela internet e não é de hoje que causa revolta. Fui questionada uma vez, em uma discussão sobre prostituição, do motivo que me levou a postar o vídeo de Sarah por lá. Ora, o caso de Sarah é apenas um dentre tantos outros com desfechos mais trágicos e revoltantes relacionados à prática. E esse é um aspecto da prostituição que não pode ser ignorado e que eu sinceramente não sei se seria evitado com a regulamentação da profissão. Apesar de achar que as profissionais devem ter seus direitos garantidos por lei, o que fazer com crianças, meninas, mulheres que são forçadas a se prostituir com o risco de perderem suas vidas? Isso, na minha opinião, é o que mais precisa sem combatido quando o assunto é prostituição, assim como a violência sofrida pela classe. É importante lembrar também que prostituição é um problema de gênero, com agravantes de classe e raça/etnia. Apesar de o meu intuito aqui não ser o de discutir a prática, o exemplo de Sarah chegou a mim e o efeito de seu depoimento é a razão pela qual escrevo esse texto. Não acredito que a situação de Sarah vá mudar, mesmo com toda a mobilização em torno do caso. A própria Sarah sabe que a morte é a sua melhor possibilidade para ser livre novamente.

02/01/2011

Dois mil e onze

Tentando evitar aqueles clichês de sempre ("o ano passou voando!"), let's go straight to the point: 2011 chegou, eu não estava/estou preparada, mas vamos ver no que dá. Aqui nos Estados Unidos as pessoas fazem resoluções para o ano novo, ao passo que no Brasil a coisa fica mais no "paz, amor, saúde" etc. Já que estou aqui, acabei formulando as minhas resolutions para vinte e onze e uma delas é passar mais tempo offline. Vou fazer o possível para que essa minha resolução não atrapalhe a atualização do blog (se é que vou conseguir cumpri-la...), afinal, me comprometi a manter isso aqui funcionando. Anyway, feliz ano novo, folks!

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24/12/2010

Mas já?

Pois é, mal voltei, já estou vacilando. Andei gripada. E estou encalhada em um post que há de sair, em algum momento. Mas vou aproveitar para linkar aqui um texto ótimo da italiana Lidia Cirillo, O feminismo da esquerda anticapitalista. Nele, a militante escreve sobre a falta de interesse no reconhecimento das ideias feministas por parte da esquerda, e reafirma a importância que o gênero excerce nas relações humanas.

Outro texto bacana é o guest post da Soraya Barreto, sobre a propaganda da cerveja Devassa Dark Ale, publicado no Blogueiras Feministas. Machismo, racismo e perpetuação de estereótipos, aspectos recorrentes no mundo da publicidade, estão também presentes na peça publicitária analisada no texto.

No mais, paciência comigo, gente.

18/12/2010

Quando eles se acham no direito de assediar

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"Que isso, hein!" "Gostosa!" "(som de beijo jogado)"

Vivendo no Rio de Janeiro, acho que poucas mulheres não passaram por situações em que os homens proferiram uma das frases acima. Estou falando do Rio porque a minha experiência é lá, apesar de já ter passado por situações similares em outros lugares. Mas no Rio parece epidemia. Quem já andou pelas ruas do Centro, por exemplo, dificilmente não ouviu uma gracinha. E, olha, me incomoda.

Tenho certeza absoluta de que não sou a única mulher a me incomodar com isso. Parece que os homens (gente, vamos lá: estou falando dos homens que jogam gracinhas para as mulheres, não de todos os homens) se acham no direito de assediar as mulheres em locais públcos, notadamente na rua. Eles vão até dizer "não, imagina, isso não é assédio. Qual é o mal em jogar um beijinho para a gatinha?". O mal se chama machismo. Não tem jeito, esse tipo de atitude, que acontece com mulheres em proporções bem maiores do que com homens é um reflexo do machismo arraigado na sociedade. É um clichê? Talvez. Mas é verdade.

Muitas mulheres têm medo de responder aos caras quando se sentem ofendidas. Isso não é esperado pelos assediadores mesmo, afinal, somos objetos. Você já viu objeto responder? Defender-se? Neste vídeo, em inglês, uma moça decide perguntar aos asssediadores o motivo das gracinhas. Alguns ficam constrangidos, outros riem e reafirmam o assédio e tem aqueles que ficam bravos de verdade. Eu costumava responder quando tinha os meus 14 anos (sim, eu era assediada aos 14. Antes, talvez), mas aí tem sempre alguém para nos previnir do risco que é se defender de um homem. Passei a ignorar e, às vezes, faço cara feia. Nos meus dias ruins, aí sim eu respondo. Mas acho que temos que nos defender, sim.

E, por favor, não me venham com o argumento de que a mulher que usa roupas consideradas provocantes está "pedindo" para ouvir as gracinhas porque este é o mesmo argumento que algumas pessoas usam para defender estupradores e condenar suas vítimas. Aliás, são atitudes ligadas em alguma medida. O cara mexe com a mulher na rua. Numa boate, ele agarra a menina à força. São graus diferentes de violência, baseados nos mesmos preceitos de que a mulher pertence ao homem, de que ela quer ser dominada, mesmo contra sua vontade e por aí vai.50315_60602632267_8183730_n.jpg

Vale lembrar que, muitas vezes, a gracinha não é só um "gostosa", que para mim já soa nojento. Mas sim um "piranha", "vagabunda" e quaisquer outras palavras que demonstrem quem é o dono da situação. Já pensaram como seria se fosse o contrário? Este vídeo ilustra mais ou menos isso: um bando de mulheres jogando piadas sexuais para os marmanjos (o vídeo não é a melhar coisa do mundo, tem problemas, é exagerado, mas está valendo para mostrar o que muitas mulheres sofrem todos os dias quando colocam os pés para fora de casa).

No fim das contas, os machos se sentem momentaneamente satisfeitos e as mulheres (não todas, tá?) se sentem envergonhadas e, muitas vezes, humilhadas e violentadas. Será que vale a pena mesmo assediar mulheres nas ruas? Você faz isso no ambiente de trabalho? Acha bacana quando acontece com as mulheres que lhe são queridas? Além do mais, esse tipo de atitude chega a ser contraproducente se o cara realmente está a fim da mulher.Portando, homens, pensem nisso.

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