03/11/2006

Os jogos que as pessoas (pensam que não) jogam

Sempre me achei uma pessoa transparente, sincera, direta. Outro dia, conversando com um amigo, desconstrui tudo que eu achava que era. Disse exatamente o que está escrito na primeira frase deste texto. Logo em seguida, completei: "mas eu sei mentir muito bem!". O que é isso? Enlouqueci? Ou será que, finalmente, fui sincera comigo mesma e criei um enorme paradoxo interno? Serei eu uma "mentirosa sincera"?

Comecei a refletir sobre isso. Afinal, o que realmente sou (não que eu esteja tentando me rotular com apenas uma característica, apenas estou buscando a verdade da minha essência)? Encho a boca para dizer que odeio joguinhos amorosos e que odeio quem os joga. Soa hipócrita depois de tudo que escrevi aqui. E é um tanto cínico, confesso. O que motiva as pessoas a tomar atitudes das quais não têm a verdadeira intenção? Quando começamos a agir desta forma?

Quando eu era mais nova - não que eu seja velha, enfim! - me comportava de maneira diferente, mais autêntica. Não podia suportar a dúvida (o que até hoje é uma tarefa difícil para mim), ou estava afim ou não estava! Era tão direta a ponto de assustar os pobres mocinhos de 15 anos! Com o (pouco) tempo aprendi que não deveria ser bem assim. Percebi que ninguém queria uma pessoa verdadeira. Parecia que "jogar" era muito melhor.

Penso que algumas pessoas jogam porque querem se defender. É isso mesmo. Eu já tive uma série de relacionamentos ruins e aprendi algo com todos eles. De cada relação falida nós levamos algo conosco. Quando nosso coração se parte e se reabilita, sempre fica uma cicatriz. E esta cicatriz representa algo que aprendemos. Alguns vícios, algumas mágoas. E para nos protegermos do próximo relacionamento, quando pensamos que podemos passar por tudo aquilo novamente, nós criamos defesas. Elas vêm em forma de jogos. Não ligo se ele não ligar, não direi que estou com saudades, não vou dar no primeiro encontro. E daí, todas essas atitudes, praticamente automáticas, nos tornam jogadores inconscientes. Eu sou um deles. E quem não é?
Todo meu discurso de sinceridade vai por água abaixo quando paro para analisar racionalmente minhas atitudes. Eu jogo sim. Mas para me defender, para proteger meus sentimentos, para mostrar o melhor de mim e que os defeitos venham um ano depois! Eu jogo porque é mais seguro, porque eu já me machuquei demais e como doeu! Não posso me condenar por algo que, em se tratando de relacionamentos, é inevitável.

Para não dizer que não há momentos de sinceridade, exponho mais uma característica de minha imperfeita personalidade: sou impulsiva. Quer momento mais sincero que este? O arrependimento que bate logo depois do ato impensado também é sincero. Eu me considero uma pessoa transparente, porém cuidadosa. Ninguém pode ser considerado mau por querer o melhor para si. Ninguém deve condenar os jogos que as pessoas jogam porque no fim, todos fazemos parte deles.

Comments

Só não podemos jogar em excesso, pois assim como um jogador de futebol que sofre lesões por jogar em excesso, nós acabamos nos desgastando e sofrendo de dores, principalmente as de consciência. É por isso que sou desfavorável à esse tipo de esporte e quase não o pratico (será qu estou blefando!?!?)

Posted by: RAFAEL | 03/11/2006

Games people "play"... Pois é Raq*, jogar é inevitável em certas ocasiões, até mesmo para evitar situações desagradáveis. O lance é não exagerar e passar a não ser nós mesmo. As consequências são terríveis...
Esse é um assunto que a gente adora discutir, né?!
Ótimo texto, pra variar.
Beijos enormes!

Posted by: Ingrid | 03/12/2006

Esse textinho eu já conhecia de primeira mão.. :) Lembra quando você me mandou?
Acho que, no fundo, o melhor é só aprender com as cicatrizes. Porque se passamos a criar defesas pras pessoas, acabamos nos tornando alguém muito inacessível, muito recuada, que cada vez será mais sozinha. Sozinha por medo de perder, de se machucar, de errar de novo. A gente tem mesmo é que entrar de cabeça nos relacionamentos, nas relações pessoais, acreditando que todo amor é pra sempre e toda amizade é eterna. Mesmo que não seja. Porque isso, se não nos fizer mais felizes, com certeza fará nossa vida um pouquinho mais doce.
Um beijão pra você, tô aqui longe, mas tô torcendo por ti! :)

Posted by: Amanda | 03/13/2006

"mentirosa sincera", isso tinha que ser um título de um livro, muito bem apurado e estudado, que com certeza as prateleiras nunca iam ter, afinal todas as pessoas do mundo iriam comprar. todo mundo em algum momento mente e todo mundo em algum momento é sincero, não é possivel viver todo tempo na mentira, nem todo tempo na verdade, muitas vezes um dos dois cansa! adorei! a sinceridade e o modo de falar de conceitos e valores que muitas vezes sentimos e temos vergonha de expor!

Posted by: Priscilla Monteiro | 03/14/2006

Raquel, tão bonita, jovem e inteligente assim é covardia...Seu texto é excelente, quase uma parábola kafkiana no começo. E como são verdadeiras as coisas que fala sobre relação. Vou colocar um link no meu blog para o teu. E agora me torno leitor assíduo. Beijos!

Posted by: Erick | 03/15/2006

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