04/30/2006
V de...
A humanidade está caminhando para um futuro que ninguém sabe ao certo. Guerra no Iraque, conflitos antigos entre judeus e palestinos, Irã e o urânio enriquecido e a supremacia americana cada vez mais questionada. Guerra biológica, guerra nuclear e guerra de informações. Dá para prever mais ou menos o destino da raça humana. Poucas pessoas têm essa preocupação, a maioria ainda está sob o efeito do individualismo capitalista.
O destino próximo da humanidade é muito bem revelado em “V de Vingança”, longa do diretor James McTeigue, que conta com Natalie Portman (Evey) e Hugo Weaving (esse mesmo, o vilão da trilogia Matrix) como “V”. A trama se passa na Inglaterra, que vive sob um regime autoritário que transmite aparente paz após anos de guerras e caos, iniciados nos Estados Unidos. Manipulação de informações, toques de recolher, censores pelas ruas, oposição oprimida, todas as medidas que se pensam necessárias em um governo ditatorial faziam parte da realidade inglesa naquele momento. O personagem V luta contra as injustiças e corrupção do governo inglês utilizando a violência, incitando o caos e a revolta na população. O governo, que tem muitos princípios nazistas, inicia uma caça ao chamado “terrorista”, e não mede esforços para prender, torturar e matar as pessoas que tenham qualquer envolvimento com V.
Alguma semelhança com a história brasileira? Sim. E muita. Em 1964, os militares tomaram o governo brasileiro com a justificativa de que o país estava à beira do caos, e de que eles iriam apenas consertar as burradas de João Goulart. Seria algo provisório. Durou 20 anos. Longos anos sem liberdade, sob opressão, tortura, morte e atraso político. A ilusão criada pelos militares convenceu muita gente, mas ao final da ditadura, o povo estava cansado, sem esperanças, sem perspectivas. Todo regime autoritário causa anseios por liberdade e democracia em algum momento.
O caos gera mudança? Talvez. A raça humana vem se mostrando, ao longo da história, muita acomodada. É preciso que se chegue ao fim da linha para que algo seja feito.
Ignoramos a pobreza, a fome e a miséria, as desigualdades social, econômica e de gêneros. Desrespeitamos a natureza, tiramos proveito sem nenhum pudor.
A que extremos teremos de atingir para perceber que o mundo está a ponto de um colapso? Avisos não faltam. Ondas gigantes, furacões, poderio nuclear, vírus de animais...
V de Vingança é muito mais um alerta que uma previsão. Ainda há tempo para se rebelar e lutar, para perceber que está tudo errado. Nunca é tarde para tal, mas quanto mais protelarmos, mais difícil e dura será a mudança. O filme deixa uma mensagem de esperança. V de Vingança, de violência, de vazio, mas também de verdade, de voz, de vez, de vontade e, principalmente, V de vitória.
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04/25/2006
Romances e Romances
Como eu já expus antes aqui, os filmes românticos-engraçadinhos até que me agradam. Não marcam, não emocionam, mas também não incomodam. Porém, é impossível comparar um verdadeiro, um autêntico romance, com uma comédia-romântica. Desculpem-me, mas não dá. Querem uma antítese? Profundo-vazio. Respectivamente.
Vou explicar melhor: o romance é irreal, impossível, intocável. Imagine só, você está perdidamente apaixonada por alguém que vai para a guerra. A Primeira Guerra Mundial, para ser mais exata. Quer algo mais romântico do que lutar contra a Alemanha, futura terra nazista? Para aumentar o drama, a mocinha tem problemas em uma das pernas, e manca. Ok, até agora essa descrição parece mais a de um filme de comédia-freak-show. Mas com todas essas adversidades nada prováveis, a trama consegue ser linda, delicada e profunda. Estou falando de “Eterno Amor”, com a minha preferida Audrey Tautou. O longa é belo de maneira singular. O que me chama atenção nos filmes franceses é o senso de humor esperto, seco e o fato de quase sempre ter um narrador. Em “Amor Eterno”, uma mulher, de voz suave, conta a história de amor de Mathilde e Manech. A mocinha aguardava notícias do noivo até saber que, para fugir da guerra, ele e outros soldados se mutilaram. Todos são condenados à morte e jogados no meio da trincheira. A partir de informações vindas dos mais inesperados fatos, Mathilde sai em busca da verdade sobre o destino de seu amado. Ai...(suspiro).
Parece trágico, mas não é. É romance!
Sintam a diferença.
Um homem, lá pelos seus 35 anos, ainda mora com os pais. A mamãe faz a cama, a comida, lava a roupa e dá beijo de despedida. Patético? Mais do que isso. “Armação do Amor” (o título de mau gosto até que faz jus ao filminho) com Sarah Jéssica Parker e Matthew McConaughey é mais engraçadinho que romântico. Paula, personagem de Parker, faz uma espécie de consultora...Hum...Como explicar a profissão desta mulher? Ela tenta convencer os marmanjos a saírem (finalmente) da casa dos pais, mas os rapazes não sabem que a moça é, na verdade, uma profissional. Preciso continuar ou vocês já sabem que eles acabam se apaixonando, ele descobre a verdade, ela se arrepende, enfim. Além da trama batida, o longa tem uma seqüência de situações impossíveis no sentido nada romântico (exemplos...Tripp é mordido por camaleões, golfinhos e esquilos). Não vou discriminar o esquecível, não vou me contradizer. Mas não tem comparação, vai.
O verdadeiro romance levamos conosco. Fica em nosso peito, em nossas emoções, permanece guardadinho no lado mais profundo de nossas mentes. Exagerei? Desculpem, acho que não consigo mais esconder. Sou uma romântica não-assumida. Ops, escapou!
12:35 Posted in Uma mistureba só... | Permalink | Comments (4) | Email this
04/17/2006
Agressão à moral
Um tapa na cara. Ou um soco na boca do estômago. O que doer mais. Porque dói. Depois de assistir à trama de “Irreversível” parece que “algo morre dentro de nós”, de acordo com a minha amiga cronista, Ingrid Varella. E é exatamente isso que o filme sugere. Não por acaso, o longa é contado de trás pra frente, e as cenas mais fortes se passam no início. Portanto, o máximo de atenção aos acontecimentos é extremamente importante. O título faz alusão, justamente, ao fato de saber as conseqüências antes de conhecer os fatos que as originaram. E que não há nada que possa ser feito para mudar o que aconteceu, são eventos irreversíveis.
O diretor francês Gaspar Noé, que também é o roteirista da trama, tem a clara intenção de chocar o público em diferentes sentidos. Os movimentos de câmera são constantes e intensos, muitas vezes em círculos, chegando a causar náuseas no espectador. Muitas cenas são escuras, com uma sonorização hipnótica e perturbadora, e não há cortes nas cenas. Quer dizer, há cortes sim, mas não na mesma tomada. E quando muda para outra, a câmera gira, como se estivesse buscando os personagens dos acontecimentos anteriores, voltando no tempo.
Outro aspecto do longa que causa um certo incômodo intencional, é que o filme trata de uma vingança. A primeira sequência narra o desespero de dois homens, Marcus (Vincent Cassel) e Pierre (Albert Dupontel) para encontrar o responsável pelo estupro e espancamento de Alex (Mônica Bellucci), atual namorada do primeiro, e ex do segundo. Em seguida, a narrativa conta os fatos que motivaram a vingança, e os fatos antecedentes à tragédia. Os personagens são reais, dramáticos, humanos. As interpretações são limpas, impecáveis, desesperadoras, com destaque para a bela Mônica Bellucci na cena do estupro. Não é válido dar mais detalhes da sequência, mas é certo afirmar que é muito real, extremamente chocante, violenta e surpreendentemente longa.
Uma agressão à moral. É impossível não reagir à seqüência contrária dos acontecimentos, às cenas escuras e perturbadoras, à dramaticidade das situações e à violência extrema. O primeiro diálogo do filme dá o tom da conclusão da trama com uma simples frase: o tempo destrói tudo. O futuro é inevitável, simplesmente irreversível.
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04/11/2006
Desilusão X Decepção
Relacionamentos, sejam do vínculo que for, são sempre difíceis em seu fim. Uma amizade que se esfacela, um namoro que esfria, um casamento que não tem mais razão de ser. Porém, creio que há uma diferença não tão sutil entre se desiludir e se decepcionar. Quando se trata de sentimentos, todo cuidado é pouco.
A desilusão é algo mais difícil de se evitar. Se duas pessoas, ou pelo menos uma delas, não preza mais o sentimento da outra, não tem jeito, acabou. Mas não é uma escolha. É difícil sim controlar os sentimentos, simplesmente não optamos a quem vamos dedicar nosso amor. Convenhamos que, se fosse possível, a mulherada não teria tantas experiências ruins com canalhas. E o pior é que elas dizem que gostam...
O fim é sempre doloroso, e a desilusão, inevitável. Você jurava que aquela pessoa seria sua amiga pra sempre, mas o tempo tratou de afastá-la. Desilusão. A paixão que veio avassaladora e esfriou com a mesma intensidade. Desilusão, de novo. E assim nos levantamos e continuamos a caminhar. A desilusão não nos impede de amarmos novamente com intensidade, ou de começarmos uma nova amizade cheios de esperança.
Por que tanta teoria sobre desiludir-se? Porque, pensando no assunto, me dei conta de que há algo muito pior do que um coração partido, como me referi no início do texto. Se sentir enganado, usado, traído...Uma desilusão não causa tudo isso. A palavra responsável por todas as outras que enumerei é decepção.
Muito pior do que um namoro que não deu certo por incompatibilidade de personalidades é um relacionamento que acabou por conta de uma traição. É horrível perceber o quanto você não conhecia a pessoa que estava ao seu lado, quanto tudo aquilo que parecia ser verdadeiro, era uma farsa. Dói. Causa uma certa revolta, alguma raiva. Ninguém quer ouvir que foi usado ou traído.
A decepção causa desconfiança, descrédito. Voltar a entregar os nossos sentimentos à outra pessoa não é tarefa fácil. Acabamos afastando as pessoas, até mesmo aquelas que pareciam legais, verdadeiras. Se bem que...Era isso que você achava do seu último namorado, né? Viu no que deu...
A mágoa fica em forma de cicatriz. O melhor a fazer é seguir em frente, sempre. Pessoas ruins estão em toda parte e, se formos otimistas, podemos pensar que elas também nos ensinam algo. Ao primeiro sinal de caráter duvidoso, afastem-se! É o que irei tentar daqui por diante, sem traumas.
03:12 Posted in homo-sapiens problematicus | Permalink | Comments (6) | Email this
04/06/2006
22 anos... Com direito a trilha sonora
Como a maioria de vocês já sabe, meu aniversário está chegando. Eu sei, tô chata com isso. Deve ser algum tipo de carência mal-resolvida que daqui uns anos, só um psicólogo (ou um psiquiatra) poderá resolver. Enquanto não chega esse momento, resolvi analisar esses (poucos) anos de minha vida e só consegui pensar em uma maneira de fazer isso: as músicas que embalaram as diferentes épocas de minha existência. Não estou colocando aqui os meus gostos musicais. Até porque as músicas parecem ter vontade própria. Eu não as escolhi, elas que me escolheram.
Meus pais se separaram há muito tempo. Precisamente há 18 anos. Lembro-me de presenciar muitas brigas entre os dois e, ao fundo, o rádio tocava "Rush, rush", da Paula Abdul que, naquele tempo nem sonhava em ser jurada do American Idol. Ouvia também "Take my breath away" da Berlin, trilha sonora do nem-tão-célebre "Top Gun", estrelado por Tom Cruise. Até hoje, quando ouço as tais canções, tenho as mesmas sensações. Mas não se enganem, não lembro apenas dos desentendimentos de mamãe e papai. Lembro, também, do quadrinho que ficava no corredor, da luz do banheiro que estava sempre acesa e da janela com vidrinhos coloridos em frente à minha cama. Boas lembranças...
Aos 7 anos passei a ouvir música constantemente. Já colocava sozinha vinis, fitas cassetes e CD’s (novidade na época) para ouvir no som. Lembro-me bem de ter uma certa coleção de CD’s, financiada pelo meu padrasto na época. Eram os Guns N’ Roses! “Live And Let Die” e “November Rain” eram parte da minha trilha sonora preferida para brincar de quem-pula-mais-longe-da-rede.
Logo depois, aos 9, creio que enfrentei uma fase meio estranha. Nesse tempo, comecei a adoração à melancolia. Nossa, que exagero! Calma, vou explicar melhor: comecei a gostar de cultivar uma certa tristeza ao som de baladinhas bem tristes. A música que melhor representa esse momento é “bizarre love triangle” (“every time I see you falling...”), do New order e a versão voz e violão, bem mais recente, com uma voz feminina cantando. Também continuo tendo sensações estranhas quando as ouço.
Me recompus aos 10. Madonna colaborou muito para isso. Eu ouvia “The Emmaculate Collection” religiosamente, todos os dias depois da escola. Tentava imitar os passos de “Holiday”, “Lucky Star”, “Material Girl”, chorava ao som de “Live to Tell” e “Crazy For You” e suspirava com “Cherish”, minha preferida.
Na 5° série, quando eu tinha 11 anos, comecei a descobrir que merda é se apaixonar. Época de descobertas e crises pré-adolescentes, outras duas músicas me vêm à cabeça, ambas nacionais. “Se” cantada por Djavan e “Sobre o Tempo” do Patofu. Confesso que não sou fã de nenhum dos dois hoje em dia, mas como expressei no início do texto, as músicas escolhem seu momento.
Com 13, 14 anos comecei a minha fase (vergonhosa, por sinal) latina. Acho que de tanto ouvir Shakira, meu espanhol ficou fluente. “...Quiero excederme, perseguirte pretenderte, /
Quiero amarte noche y dia / Quiero gastarme la vida...”. E confesso, hoje em dia sem vergonha alguma, que tenho muitas saudades de ouvir aquela voz estranha da Shakira cantando outra música, “Antología”. Logo depois, lembro que comecei a ouvir Alanis. Adoro até hoje. Essa louca marcou e muito um período que foi até meus 15 anos. “Jagged little Pill” ainda se perpetua como um de meus cd’s favoritos. Quando ouço aquela guitarra no início de “Wake Up” me arrepio...(suspiro). E a agressividade de “Not the Doctor” e “All I Really want” ainda fazem a minha cabeça. Alanis retornou ao meu som logo depois com o MTV Unplugged. “And you're like a 90's jesus / And you revel in your psychosis / How dare you...”.
16 anos é sempre uma fase meio complicada. Ninguém te ouve, ninguém te respeita, você não sabe o que quer. Uma droga. Para me ajudar a entender esse momento tão confuso, ouvi muito Sublime. Naquele tempo o vocalista Bradley Nowell já tinha perdido a “guerra” contra a heroína (de acordo com a letra de Pool Shark, Bradley vivia tentando se livrar da maldita, mas não conseguiu. Morreu de overdose em 96), mas “Santeria” tocou tanto no rádio alguns anos antes que, mesmo sem vocalista, a banda manteve o sucesso nos anos seguintes. Eu ouvia “Boss DJ” umas dez vezes por dia. Ou mais.
Engraçado que até os 17 eu ainda tive dois momentos com trilhas sonoras. Depois disso, estes ficaram mais curtos. Hoje, com quase 22, devo ter uma trilha a cada mês. Em agosto do ano passado me rendi ao Save Ferris, logo depois ao Natiruts. Em outubro, ouvia muito um cd de músicas francesas, enganada pela minha prima que dizia que aquela era a trilha sonora do filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”. E não era mesmo. Mas nem por isso deixei de gostar das musiquinhas! Em dezembro de 2005, uma amiga muito querida me deu uma coletânea de presente de natal, com músicas selecionadas por ela. Marcou bastante, ainda dá nó na garganta. Passei por Marisa Monte (mas essa é eterna!), Vanessa da Mata (essa está proibida por enquanto) e a verdadeira trilha sonora de Amélie poulain (apaixonante). De repente, toda essa mistura de músicas tenha muito mais a ver com sentimentos do que se imagina. Todos os títulos que coloquei aqui trazem um turbilhão de sensações boas, ruins, estranhas, tristes...Agora, estou esperando a trilha do próximo mês, ou, quem sabe, da próxima semana. Qual será?
16:50 Posted in Uma mistureba só... | Permalink | Comments (5) | Email this

