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04/20/2007
Abismo Feminino
Quando penso que as mulheres estão se livrando do enorme peso moral colocado sobre nossas costas há tanto tempo, a realidade vem à tona e eu não consigo me conformar. Passamos tantos anos esquecidas pela História (que é contada e documentada sob o olhar masculino), submissas, frustradas. Desde os anos 60, quando a luta pela igualdade entre gêneros se intensificou, muitas mulheres lutaram e lutam para que sejamos, enfim, encaradas como seres humanos, donas de nós mesmas. E muita coisa mudou, é verdade.
(Escrevo este texto na primeira pessoa do plural para me incluir no contexto e mostrar o quanto estou transtornada).
As revistas femininas, encaradas como espécie de "bíblia" por muitas mulheres de classe média, se popularizaram com o discurso pseudofeminista. A idéia de liberdade de tais periódicos é a de que as mulheres são livres para consumir. Elas podem trabalhar, desde que não se livrem da dupla jornada, com a condição de que permaneçam no mundo doméstico. O mesmo vale para os programas de tv.
O contraponto da imagem da mulher nesses meios de comunicação é um tanto curioso: ao mesmo tempo em que somos tratadas como mães e donas de casa, devemos permanecer jovens, magras e lindas. Nos tornaram escravas do consumo. Querem nos fazer acreditar que assim seremos felizes. Somos cercadas por estereótipos loiros de corpos "sarados", por roupas da moda que custam o mês inteiro de trabalho, por cosméticos que nos vendem a juventude (requisito indispensável para ser bela, de acordo com alguns veículos de comunicação).
E tudo isso está tão internalizado por nós, que nem percebemos que, na verdade, esses conceitos não nos pertencem. Como nos anos 50, quando revistas femininas faziam muitas mulheres crerem que a infidelidade de seus maridos era "natural", um fator biológico.
Decidi escrever este texto depois de assistir um comercial na televisão, e pesquisar algumas coisas na rede.
Toda vez que vejo o desagradável anúncio do absorvente Intimus Gel, tenho vontade de explodir a televisão. Juro. A propaganda é de extremo mau-gosto, e começa com a seguinte pergunta: o que os homens mais reparam em uma mulher? Num tom irônico, a propaganda segue com três respostas masculinas. O primeiro dizia que repara nas bochechas; o segundo afirmava que aquelas que falam muito o atraem; o terceiro, bom esse aí disse que o que conta é a beleza interior. Logo em seguida passa uma moça, a câmera foca em sua bunda (sim, bunda!), e vários homens olham na mesma direção da tal câmera. Vocês podem conferir o comercial aqui.
Não bastasse a revolta por conta do comercial, comecei a fuçar na rede o que as revistas femininas andam aprontando. Tiro certo. A revista Nova está promovendo um "concurso cultural", que pretende premiar leitoras que responderem de forma mais criativa à pergunta "que loucura você faria para conseguir um autógrafo?". Ah, faltou dizer que os prêmios são fotos autografadas de atores globais. Devo admitir que o conceito de cultura é realmente relativo.
Até quando vamos continuar alimentando este tipo de coisa? Até quando permitiremos tal tratamento pela mídia? Eu espero que as mulheres se conscientizem. Que se revoltem. Que ajam. Cancelar assinaturas poderia ser um começo.
02:10 Posted in Mulheres, mulheres... | Permalink | Comments (6) | Email this
Comments
Muitas vezes, uma determinada forma de opressão é reconhecida de forma geral e há uma preocupação em relação aos caminhos que podem fazer as coisas melhorarem para os oprimidos. Em outros casos, as coisas se dão de forma dissimulada, de forma que nem todos compreendem o que ocorre, talvez por não conseguirem vislumbrar alternativas a um modelo que perdura por muito tempo. É o que me parece acontecer nesse caso - o que me faz ficar mais triste é encontrar muitas mulheres que são pouco críticas e não percebem certos aspectos dessa dinâmica, mencionados por você. Pior que isso, algumas são coadjuvantes desse modelo ou até o defendem. Confundem cavalheirismo com machismo, por exemplo. Exigem a manutenção de uma lógica que tem como conseqüência a permanência delas em segundo plano. Isso me faz lembrar que talvez o maior triunfo de uma ideologia consista na reprodução e defesa de seus princípios pelos oprimidos. É o que acontece quando um negro brasileiro diz que algo como: "Ah, mas tem um ministro negro no STF. Logo, há chances e é só correr atrás". Ou quando um pobre fala: "Mas foi bom privatizar a telefonia móvel, pois os celulares ficaram mais baratos". Ou, enfim, quando uma mulher não cancela determinadas assinaturas...
Felizmente, eu conheço algumas mulheres esclarecidas como você. Poucas, porém. Uma amiga teve a sorte de casar com um rapaz que pensa como nós. Outro dia ela me contou, com naturalidade, que ultimamente tem usado mais a cozinha, pois, como seu marido tem trabalhado mais horas (ele é professor), ele tem deixado de preparar a comida para ela. Infelizmente, casos como esse ainda são raros.
Escrevi muito, não é? Esse assunto é muito interessante para mim. "Trauma", talvez. Hehehe... Você me entende, tenho certeza.
Ler você é sempre uma alegria! Suas opiniões e sua inteligência fazem de você uma mulher de verdade!
Beijo enorme!
Posted by: Helio | 04/20/2007
Sobre o comercial, mais fantástico é o "ah, fala sério!" depois das respostas dos homens. E ainda fecha com chave de outro: "Intimus entende você".
Ah, tá. Acho que eu ainda tenho que agradecer.
Beza!
Posted by: Amanda | 04/24/2007
Biscuda (esses apelidos são públicos?), atualiza o endereço do meu blog!
Beza.
Posted by: Amanda | 04/25/2007
Fico triste que um menina tão nova como você pense como a geração passada. As mulheres já superaram essa necessidade de se provar o tempo todo. Quem ficava ofendida com elogios a aparência eram as mulheres que iniciaram as conquistas no mercado de trabalho. Hoje em dia não tem mais isso. Se alguém me acha bonita, não significa que eu sou incapaz ou burra. É um elogio. Afinal, faz parte da essencia feminina provocar o sexo oposto. Me parece que você está dando mais valor a aparência do que as revistas e os comerciais que critica. Que na minha opinião é muito divertido. Por isso, deixe que olhem para sua bunda e seja mais feliz.
Posted by: Laura | 10/09/2007
Laura, pena mesmo foi você não ter entendido o texto. Não sou contra a beleza, e muito menos a supervalorizo. Apenas acho negativo - não apenas para as mulheres, mas para as sociedades - que se coloque a beleza acima e em detrimento de todo o resto. É isso.
De qualquer forma, agradeço o comentário. É sempre bom ter opiniões divergentes num mesmo espaço.
Posted by: Raquel | 10/19/2007
Adorei seu blog e acho que você tem razão em vários pontos... nos últimos 30 anos o mundo para as mulheres mudou muito e continua mudando, assim como para vários outras subdivisões da sexualidade. Todavia, o mundo se tornou mais difícil para vocês. Hoje, nos grandes centros urbanos, uma mulher prá se sair bem no ramo pessoal de sua vida, tem que, além de casar, estudar, ser atraente (ainda que não nos padrões das revistas), se bancar, chegar junto nas despesas do lar e inventar pratinhos criativos e pouco calóricos para o jantar. Feliz é minha mãe que cuidou bem de seus filhos, é dona de casa e não liga muito para o que se passa nas tvs e revistas. Longe de estabelecer qualquer parâmetro de comportamento, essa é uma mera constatação. Também acho que existe uma tendência crescente da figura masculina se vulgarizar, se tornar objeto de desejo pela aparência, haja vista a grande quantidade de academias que surgem tão rapidamente quanto igrejas evangélicas e nos exigem brações de Vitor Belfort(e) e abdôme de Paulo Zulu... Mas enfim, se a beleza tem seu retorno e amplia nosso leque de opções, que ela venha para o bem e possamos usar de seu melhor em nossas vidas, sem esquecer de nossa cultura e de nossos sentimentos.
Posted by: Ariston | 04/07/2008

