« 2007-02 | HomePage | 2007-05 »
04/20/2007
Abismo Feminino
Quando penso que as mulheres estão se livrando do enorme peso moral colocado sobre nossas costas há tanto tempo, a realidade vem à tona e eu não consigo me conformar. Passamos tantos anos esquecidas pela História (que é contada e documentada sob o olhar masculino), submissas, frustradas. Desde os anos 60, quando a luta pela igualdade entre gêneros se intensificou, muitas mulheres lutaram e lutam para que sejamos, enfim, encaradas como seres humanos, donas de nós mesmas. E muita coisa mudou, é verdade.
(Escrevo este texto na primeira pessoa do plural para me incluir no contexto e mostrar o quanto estou transtornada).
As revistas femininas, encaradas como espécie de "bíblia" por muitas mulheres de classe média, se popularizaram com o discurso pseudofeminista. A idéia de liberdade de tais periódicos é a de que as mulheres são livres para consumir. Elas podem trabalhar, desde que não se livrem da dupla jornada, com a condição de que permaneçam no mundo doméstico. O mesmo vale para os programas de tv.
O contraponto da imagem da mulher nesses meios de comunicação é um tanto curioso: ao mesmo tempo em que somos tratadas como mães e donas de casa, devemos permanecer jovens, magras e lindas. Nos tornaram escravas do consumo. Querem nos fazer acreditar que assim seremos felizes. Somos cercadas por estereótipos loiros de corpos "sarados", por roupas da moda que custam o mês inteiro de trabalho, por cosméticos que nos vendem a juventude (requisito indispensável para ser bela, de acordo com alguns veículos de comunicação).
E tudo isso está tão internalizado por nós, que nem percebemos que, na verdade, esses conceitos não nos pertencem. Como nos anos 50, quando revistas femininas faziam muitas mulheres crerem que a infidelidade de seus maridos era "natural", um fator biológico.
Decidi escrever este texto depois de assistir um comercial na televisão, e pesquisar algumas coisas na rede.
Toda vez que vejo o desagradável anúncio do absorvente Intimus Gel, tenho vontade de explodir a televisão. Juro. A propaganda é de extremo mau-gosto, e começa com a seguinte pergunta: o que os homens mais reparam em uma mulher? Num tom irônico, a propaganda segue com três respostas masculinas. O primeiro dizia que repara nas bochechas; o segundo afirmava que aquelas que falam muito o atraem; o terceiro, bom esse aí disse que o que conta é a beleza interior. Logo em seguida passa uma moça, a câmera foca em sua bunda (sim, bunda!), e vários homens olham na mesma direção da tal câmera. Vocês podem conferir o comercial aqui.
Não bastasse a revolta por conta do comercial, comecei a fuçar na rede o que as revistas femininas andam aprontando. Tiro certo. A revista Nova está promovendo um "concurso cultural", que pretende premiar leitoras que responderem de forma mais criativa à pergunta "que loucura você faria para conseguir um autógrafo?". Ah, faltou dizer que os prêmios são fotos autografadas de atores globais. Devo admitir que o conceito de cultura é realmente relativo.
Até quando vamos continuar alimentando este tipo de coisa? Até quando permitiremos tal tratamento pela mídia? Eu espero que as mulheres se conscientizem. Que se revoltem. Que ajam. Cancelar assinaturas poderia ser um começo.
02:10 Posted in Mulheres, mulheres... | Permalink | Comments (6) | Email this

